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sábado, 2 de dezembro de 2017

Fases

Fazem alguns meses que venho enfrentando percas. Elas acontecem de uma forma que parecem ser de repente, mas que com poucos minutos de reflexão, nota-se que sempre se pronunciaram.


Está passando na TV uma novela que mudou de fase. E a sensação que tenho é que, quem quer que seja que escreve minha história, mudou a fase e não me avisou. Fui obrigada a ver tudo ruir e meu dever é reconstruir. Tenho andado por caminhos cheios de significado e que agora , só mostram lembranças. Vários flashs tem aparecido para me assombrar, ou fazer peito doer de saudade. Novos personagens tem surgido, abrindo novas oportunidades. Mas quem perguntou se eu queria que as coisas mudassem? Quem se importou comigo?


Aliás, a vida se importa se estamos prontos ou não para perder algo que amamos? Ela se importa se estamos preparados para encarar verdades tão doloridas?


Tentar entender tudo o que tem passado é complicado.Ao mesmo tempo que sinto que faltam-me peças e que não sei lidar com o mundo sem elas, é como se o quebra-cabeça por si mesmo,estivesse se completando.


Lembro de outras fases que já passei, lembro de mim com outros olhos.Lembro de mim com orgulho,com convicção. Enfrentar tudo sem desmoronar tem me dado essa convicção.E hoje vejo que não sou mais a mesma, pelo contrário: sou eu mesma.E sempre fui.Mas só descobri agora.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Inferno Astral

- Hoje começa oficialmente meu inferno astral!


-Bobagem! Não existe isso!

Pensei em fazer uma piada sobre como seu inferno astral passou para mim da última vez, mas sabia que você estava sensível e achei melhor apenas te tranquilizar.


De fato, os dias começaram a mudar. Eu sentia uma atmosfera estranha, tudo estava tenso, no trabalho, na saúde, na família. Em mim também.


Um dia cheguei em casa e meu cachorro tinha morrido, já tinha sido enterrado, nem ao menos me despedi. Nos mesmos dias, de forma repentina, tive uma infecção de garganta e fiquei como uma criança, extremamente fragilizada. Tive febre alta, muita dor, precisava de colo. Resolvi até procurar um aleitamento espiritual por sentir que estava tudo sobrecarregado. "Você quer fazer um tratamento espiritual?", "Sim,estou precisando!".


Comecei a notar que objetos ao meu redor estavam se quebrando, caindo, que eu pegava coisas das quais gostava e elas escorregavam de minhas mãos. Meu anel favorito quebrou, meus brincos. E eu não sei porquê, mas a imagem de garrafas se batendo e estilhaçando sempre vinham á minha mente.


Eu não percebi, mas eu tinha algo mais frágil ainda. Eu sabia que estava trincado,mas meu empenho em consertar e cuidar com carinho me fez acreditar que era só uma fase.


Uma nova batida o fez escapar de minhas mãos,sem que eu percebesse. E eu já não podia fazer mais nada. Se partiu em mil pedaços e me partiu em um milhão deles.


Comecei a sonhar que suas fotos sumiam quando eu as buscava. Sonhei que meu quarto estava com roupas acumuladas,jogadas pelo chão, quase na minha altura e hoje eu sei que minha desorganização tem tudo a ver com meu estado mental.


Todos os dias enquanto vou ao trabalho, chego em casa,interajo com as pessoas, é como se só uma parte minha estivesse reagindo ao mundo. A outra quebrou, a outra se partiu.


Eu não sei se existe inferno astral. Eu sei que existem as consequencias de nossas escolhas.E eu não notei a fragilidade das coisas.

domingo, 8 de outubro de 2017

Vácuo

Me via presa em um lugar, mas não sabia qual era.


Toda minha vida perguntei-me onde eu estava


E porque de não me achar em nenhum canto,


Nenhum rio,


Nenhum mar.


Nada era eu ali.


Com o tempo, fui construindo caminhos,cavando túneis


Cada vez maiores e mais profundos.


Tirei forças de onde não tinha para escalar todas as serras.


Tomei todas as estradas e todo mundo me dizia:


"Você vai sair dessa!".


Até que cheguei ao topo e encontrei não uma pessoa, mas várias


Que me diziam:


"Bem-vinda, você chegou!"


Mas onde cheguei?


"Em lugar nenhum! O mundo é isso aí!"


A caverna é o mundo.


O mundo sou eu.


Não há lugar melhor nem pior.


Como viver sabendo que vou ter que conviver comigo até o fim?

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Morada boa

Pintura minha
Por todos os lados me fiz podada. Os galhos, antes repletos de folhas, estavam muito bem aparados.

Mas não sou árvore decorativa, ornamental, feita para enfeitar e não causar incômodo. Sou da copa volumosa, das folhas que caem e cobrem todo o chão, da que quebra as paredes, atravessa os tetos, invade as casas.

As circunstâncias me fizeram polida, mas minha natureza ruidosa já começa a fazer com que os galhos sejam maiores e despontem onde não deveriam.

Em compensação, agora aqueles que antes não tinham lugar, me fizeram casa. Casa sem porta, sem tranca, sem regras. Morada que não precisa de permissão pra acontecer. Ela é! Ela acontece!

E não adianta cortar, derrubar, enfraquecer. Vou brotar de novo. E mais uma vez!

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Em meio ao caos, Feliz aniversário

Hoje, eu completo 28 anos.

Há poucos dias atrás, um amigo meu se suicidou.

Eu nunca tinha passado por algo parecido, nunca a morte foi um soco tão forte na minha cara. Nunca! Acredito que grande parte das pessoas já pensou, mesmo que “de brincadeira”, em morrer. E mesmo quem acha que pensa a sério, descobre que era apenas de “mentirinha”  quando vê alguém do seu lado partir dessa forma, porque não há nenhuma dor imaginável que faça você compreender como essa pessoa conseguiu forças para isso! É como se a morte pousasse no seu ombro e te observasse de perto. É como uma bala perdida que poderia ter te acertado e você então, se dá conta que seu corpo ainda tem vida. 

É muito diferente de quando perdemos alguém por causas naturais, ou até mesmo brutais,mas que o levou “na hora certa”: “Era a hora dele”, “ele cumpriu sua missão na terra”. É difícil cair a ficha “ele planejou  sair desse plano”. Fica um vazio horrivelmente desconfortável, uma sensação de violência, de raiva, de inconformidade e desamparo.

É sério que ele não vai mais dobrar a esquina perto da estação de trem, abrir seu sorriso e me dar um forte abraço?

Que dor foi essa tomou esse coração? Que espírito foi esse que levou o meu amigo?

Um dia, pensei que soubesse o que era querer partir desse mundo. Hoje eu sei que isso nunca chegou aos pés da perturbação que meu amigo sentiu.

Nesse aniversário, estou sentindo meu corpo presente. Sentindo como se uma nova chance me fosse dada, como se, de verdade, a vida fosse algo precioso que precisa ser zelado. Porque enquanto eu ainda estou aqui, mil e uma coisas podem acontecer. E quando eu me for, o que mais poderá ser feito? Quem garante que há outro lado? E quem garante que, se houver esse outro lado é bom? Que será melhor do que aqui, por pior que aqui possa ser?

Esse não é um texto moralista, eu não julgo ninguém que sentiu um desespero tão imenso a ponto de tomar tal decisão. Esse texto é para perceber que estou viva, que sou resistente e que quero continuar sendo assim.


Feliz 28 anos de resistência nesse mundo caótico, que engole  sempre os melhores, pra mim!

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Broken Mirror


Sinto que estou me remontando, realocando as peças.
Ou os cacos.
Tanto meu corpo, quanto minha mente, quanto meus olhos.
E tá doendo.
Tá desconfortável ver a realidade de forma mais clara. Não está ruim.
Está DES-CON-FOR-TÁ-VEL.
Tá veramente incômodo ver a mim mesma com o grau mais acertado, assim como ver os que amo com novos olhos.
O mudo é nosso espelho, mas infelizmente, ás vezes ele precisa ser quebrado para que nós não nos deixemos despedaçar.
Mas a melhor parte disso é que você se torna cada vez mais inteira, sem precisar do reflexo do outro para medir sua própria existência.

domingo, 4 de junho de 2017

Por que sou artista

Eu não tive escolha.
Quando me perguntarem o porquê de eu ter me tornado artista, vou responder simplesmente que nunca foi uma opção, mas uma necessidade, como respirar para poder sobreviver.Foi sempre um respiro.
Eu nunca produzi nada pensando em vendas, galerias, nome  ou reconhecimento. Nunca foi uma profissão almejada, nunca foi um sonho. Sempre foi um ato de desespero, de liberdade,  de manutenção de uma vida caótica.
Eu atuei para não me cortar, para não me jogar de um precipício.
Eu escrevi para não forçar meu vômito.
Eu pintei para elaborar os símbolos do meu inconsciente.
Eu cantei para não gritar.
Eu virei noites em telas, livros, escritas, para não morrer.
A dor vinha e eu aliviava como podia, fosse com remédios, fosse com criações. 
“Artista” foi o nome que me deram, mas não o escolhi, contudo, o reconheço.  
Agradeço a Arte por ter me tomado antes mesmo de eu tê-la escolhido de maneira consciente.











Fotos de Edson Spitaletti e Roberta Perônico.
Pinturas minhas.