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quinta-feira, 19 de abril de 2012

O medo de que todos possam, de que todos tenham, de que todos sejam


Há muito tempo tenho vontade de falar sobre esse tema, mas nunca soube bem como e nem por onde começar.
Eu sou suburbana, de família pobre, moro na periferia, no extremo Leste de São Paulo, estudei minha vida inteira em escola pública e nunca me envergonhei e nem me envergonharei disso! Os cursos que fiz, principalmente faculdade, foram todos gratuitos, correndo atrás de bolsa, estudando, pegando fila pra conseguir vaga. Apesar da predominância europeia, minha descendência também é negra, indígena, toda a parte da minha família do lado materno é  nordestina e eu amo isso!
Como sempre corri muito atrás das coisas, tive o privilégio de conhecer muitas pessoas de classes diferentes a minha, pessoas com as quais mantenho amizade sem me sentir inferior de forma alguma! Porém, há certos comentários que ouço que me chocam!
Usarei como um exemplo algo simples que anda ocorrendo e que a classe que se considera mais intelectualizada chama de “orkutização”.
Antigamente ninguém tinha acesso à internet, apenas pessoas com melhores condições econômicas. O Orkut era a rede social do momento!  A maioria das pessoas que lá entravam era por puro marketing pessoal, entrando em comunidades pretensiosas, exibindo-se em fotos escandalosas, descrevendo-se como a última bolacha do pacote. Mas há quem usava a rede para realmente participar das comunidades, interagir com os amigos, conhecer gente nova.GRAÇAS A DEUS houve uma política de inclusão digital, onde pessoas de baixa escolaridade e baixa renda tiveram oportunidade de desfrutar dessas novas tecnologias. O orkut então se tornou um espaço popular e democrático, aberto a todos. Claro, como muitos não estavam acostumados com esse novo meio é normal que haja um deslumbramento, uma vontade de fazer tudo de uma vez e também de se exibir (como coisa que todos nós não fazemos isso!).
Eis que do nada a nova sensação se torna o Facebbok e aqueles que colocavam seu Orkut em um pedestal passaram a rir do mesmo como se o erro estivesse na rede social e não na pessoa. Não bastasse isso, passaram a circulares fotos dessas pessoas mais pobres como uma maneira de ridiculariza-las. Agora, com a entrada dessas pessoas no Facebook, a palavra “orkutização” se tronou sinônimo de “povão”, “ignorância”, “ridicularização”.
Esse exemplo que usei do Orkut foi só para ilustrar o que tem me deixado indignada: O medo que os “nobres” tem de que a massa ganhe vez e voz!
Ouço discursos ridículos sobre o PROUNI, a oportunidade que muitas jovens tem agora de cursar uma universidade particular , um direito NOSSO.  O que se ouve é que isso estão abrindo “universidades de esquina” e que a classe média está sofrendo com a perda de suas copeiras, porteiros e empregadas domésticas.
Ouço que agora qualquer “baianão” pode ter carro, viajar de avião e ter um celular.
Ouço falar que o Bolsa família , que já é uma miséria, só serve pra deixar vagabundo ainda mais vagabundo.
Ouço falar que pessoas que são subjugadas o tempo todo pela sua cor e classe social se fazem de vítimas.
Ouço coisas tão baixas que chegam a “celebrar” o dia do índio com uma frase boçal como “Hoje é dia de todo ignorante que usa “mim”  antes do verbo! Feliz dia do índio!” no twitter!
E dizem  essas coisas desde a forma mais Chula até da maneira mais culta de nos tratarem, nós, que somos uma gente tão “diferenciada”.
Eu não tenho vergonha de mim, de onde vim e muito menos dos meus esforços. E mesmo que eu não tivesse me esforçado, ser vista como um ser humano digno é uma OBRIGAÇÃO! Estudo é um DIREITO!
E eu tenho certeza que se vier alguém aqui pra me atacar ou atacar a qualquer um de nós, este não mostrará a cara, pois esse tipo de gente é COVARDE, apodrece em sua  própria mesquinhez e preconceito. Fala o que quer, mas não quer ouvir o que não quer e nem argumentos para usar tem, se fazendo valer por agressões e baixarias. E estes são os mesmo que em seu mural pregam que religião não define caráter, que feio é seu racismo e tantas outras frases batidas que estamos acostumados a ver todos os dias.
Eu me sinto agredida. Sinto-me agredida ao ver um negro sendo humilhado, ao ver um pobre sendo chamado de vagabundo, ao ouvir que ela foi estuprada por que era biscate.
E finalizo esse post com o que sempre repito e nunca irei parar de repetir: A culpa não está na internet, no Orkut, no twitter ou no Facebook. A culpa de tanta ignorância está nas pessoas que usam essas redes sociais. A culpa sempre estará nas pessoas!
O mundo virtual reflete de forma caricata e desfigurada aquilo que somos ou pensamos ser e enquanto essa mentalidade mesquinha não mudar, nada  mudará nunca, nem aqui e nem em lugar algum!

5 comentários:

  1. CLAP, CLAP

    Adoro, vc menina!!

    Isso é só o preconceito social que tanto encontramos no dia a dia sendo transplantado para o mundo virtual. Folgo em saber que cada dia mais tem menos empregada doméstica e menos mão de obra para a classe media e alta explorar.

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  2. Não preciso dizer mais nada.
    Perfeito!

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  3. É a pretenção dos ignorantes.
    isso sempre imperou, mas com o nivelamento de muitos recursos de "voz" essa gente que sempre se sentiu melhor e mais inteligente está ombro ombro com os que sempre criticou atiçou a sanha dessa gente. Os classe-media, os roqueiros, os descoladinhos, os letradozinhos, os "bela-vistas" e os "vila madalenas", os "national geographics", os ateus etc... é piada, sem-graça, mas é vê-los se engalanar....sic.

    facebook é muito mais tosco e despropositado que o orkut é tao somente uma mistura precária do orkut com o twitter, a diferença que espertamente seus proprietários fizeram uma milhonária camapanha publicitária para criar uma aura de algo que ele não e conjuntamente com a metodologia covarde de denegrir e ridicularixar as outras redes sociais.

    Tbm me sinto agredido, pois como vc, cresci e vivi no extremo leste de sp, vim de familia muito pobre e de origem nordestina (turcos, espanhois e iranianos estão em minha ancestralidade mas massiçamente é nordestina).
    Meu meio profissional campeia essa gente, pseudo intelectuais, esnobes, artistas (que não sao de fato desapegados a essa coisa podre) literatos, riquinhos e classes-médias. Às vezes acho que quero vomitar na cabeça dessa gente.

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  4. Gostei mto do seu blog e da forma sincera como vc fala das coisas. Concordo contigo e também acho que não é a internet o problema, mas a ignorância das pessoas. A internet aproximou as pessoas e as realidades, e acabou trazendo a tona o preconceito, que antes ficava enrustido. Num mundo ideal, a internet aproximaria essas realidades e conheceríamos a peculiaridade de cada uma, despertando o lado humano e a empatia. Mas o mundo não é ideal...

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  5. Gostei mto do seu blog e da forma sincera como vc fala das coisas. Concordo contigo e também acho que não é a internet o problema, mas a ignorância das pessoas. A internet aproximou as pessoas e as realidades, e acabou trazendo a tona o preconceito, que antes ficava enrustido. Num mundo ideal, a internet aproximaria essas realidades e conheceríamos a peculiaridade de cada uma, despertando o lado humano e a empatia. Mas o mundo não é ideal...

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